Adorei o blog dela. Já virei fã.
Abaixo 3 textos que tirei de lá.
Pessoal e intransferível
O passado é sagrado.
Não importa quantos erros, descompassos, projetos preteridos, corpos suados em nossa cama tenham acontecido. Não importa se ele foi triste, monótomo ou irrealmente agitado. Não importa o montante de dinheiro ganho e gasto inutilmente. Quando se ama alguém, inclusive a si mesmo, e se aceita outra pessoa fazendo parte do seu cotidiano e escrevendo a quatro mãos o diário imaginário da vida, aceita-se também a história pregressa, tudo o que não presenciamos, de que temos ciúmes ou raiva. Tudo que é alheio a nós.
O passado, em cada ínfimo detalhe, é o responsável por quem somos hoje--- e se existe amor nesse instante é porque esse alguém trilhou por cada passo sórdido ou sem importância de sua biografia. É porque esse alguém existe e já existia antes de entrar em sua vida. Antes de você entrar na vida dela—-- e como é duro admitir, no alto Vôo de nosso egocentrismo, que somos preteríveis, substituíveis. Que a primavera não vai atrasar nem o céu desabar no momento do nosso distanciamento.
É difícil lidar com o passado de quem amamos porque é então que enxergamos com crueza a relatividade de nossa importância, notamos que o amor hoje dedicado a nós já pertenceu a outros.
O passado é sagrado e deve ser tratado com respeito e com um distanciamento cordial para não cairmos no poço fundo da nostalgia.
O passado é a única coisa que realmente nos pertence.
As delícias dos homens de quatro décadas
Sempre gostei de homens mais velhos.
É inevitável me sentir constrangida diante da inaptidão dos novinhos. O pior não são os tímidos confessos ou os atrapalhados evidentes que não sabem onde colocas as sílabas e muito menos as mãos (esses merecem as benesses do olhar bondoso por terem verdadeiramente tentado o seu melhor); os que mais me incomodam são os que pensam dominar arte e técnicas de deixar mulheres trôpegas de desejo, mas tudo o que conseguem são interlocutoras abismadas diante de tanta tagarelice inútil. Confesso que sofro de uma incorrigível patologia, a TPT: timidez por terceiros. Morro de vergonha pelo papelão dos outros. Por isso prefiro os coroas.
Coroas aprenderam a duras penas, com a prática, decepções e erros, a seduzir uma mulher. Antes disso, sabem o quanto a sedução é essencial. Sem ela a vida fica prática demais, direta demais, misteriosa de menos. Homens nunca deixam de sofrer de ereções involuntárias perante um quadril vasto e rebolante, mas os coroas sabem controlar a salivação para não causarem danos psicológicos irreversíveis a suas parceiras--- eles já perceberam o quanto um olhar lascivo lançado para o lado deixa sua garota se sentindo mais pra baixo que estação de metrô.
Nunca liguei para bíceps torneados e fôlego de maratonista e não suporto a vaidade excessiva de machos que tenham nécessaire maiores que a minha (graças ao bom Deus que nem todos aderiram a deprimente moda de passar creminhos, fazer luzes no cabelo e desfilar por aí com base na unha—metroxessualismo é coisa de boiola). Troco facilmente uma barriga tanquinho pela habilidade raramente adquirida aos 20, conquistada lá pelos 30, e aprimorada depois dos 40, intitulada "cumplicidade". O acúmulo dos anos de vida em um homem pode aumentar a quantidade de células adiposas na barriga mas também aumenta a quantidade de informações necessárias para entender a alma feminina (pelo menos o mínimo necessário) e a paciência para lidar com suas idiossincrasias. E essa habilidade resulta em algo quase mágico: a vontade de estar com uma mulher por ter afinidades reais com ela, sonhos e gostos em comum, e não por ela ser um prêmio adormecido ao seu lado na cama, uma bunda marmórea a qual ele pode se gabar de ter apalpado. Coroas já tiveram, pelo menos, mais tempo de deixarem de ser fúteis; Apesar de alguns não tomarem jeito nem assim...
Mas, acima de tudo, gosto de homens mais velhos por saberem usar a língua. Eles sacaram que ela é a responsável por elogios derretedores de gelo, conversas inesquecíveis, frases memoráveis e por transformar noites tediosas em momentos cheios de lembranças gemidas e úmidas.
Sabe qual a vantagem dos garotos? É que um dia eles serão quarentões e terão aquele charmoso ar grisalho de quem já não precisa provar (quase) nada para o mundo.
Felicidade de orquídea
Existe vida numa relação sem sexo?
Vocês estão juntos há um tempão e se amam. A conta conjunta está no vermelho, a sua prima é amiga da tia dela, vocês compraram uma casa. Com tudo isso, qual o problema de, num domingão, em plena sessão de cinema no sofá, dar mais vontade de ficar deitado juntinho do que de transar? Nenhum, se isso acontecer uma vez ou outra. O problema começa quando só se tem vontade de ficar juntinho. Piora se, depois de várias reprises dessa cena, um dos dois muda de opinião sobre ser tão gostoso assim apenas ficar juntinho. E se torna insustentável na hora em que ela (ou você) se sente um lixo erótico, a versão humana do peixe-boi.
Ela o apóia nas horas complicadas, implica com seus amigos, te pentelha se sente seu bafo de cachaça e não rola a menor tensão sexual entre vocês? Então você não tem mais uma mulher: tem duas mães.
Sentir-se desejado é tão vital quanto vitamina C: um agarrão inesperado, uma sacanagem ao ouvido fazem o dia valer a pena, reluzem o ego. A ausência desses pequenos carinhos e, mais tarde, do ranger da cama, é um tremendo indicador de que tem algo bem errado na relação.
O tesão é a demonstração instintiva do quanto queremos aquela pessoa perto, dentro, misturada a nós. Ou do quanto não fazemos questão disso. Já passou da hora de acabar com essa hipocrisia de que, depois de um tempo, o sexo se torna desimportante para os casais. Como assim? Quer dizer que num determinado momento viramos samambaias? Não, mas nos tornamos peritos em negar o óbvio: a relação está, sim, na UTI.
É impossível não ficar abalado quando nosso parceiro e o abajur surtem o mesmo efeito sobre nossa libido, mas é possível ignorarmos os sintomas e continuar "nos dando superbem". A vaca vai de vez pro brejo quando buscamos em outros corpos os toques, beijos e orgasmos ausentes e tão necessários.
Será que vale a pena viver comendo fora ou menosprezar a própria sexualidade em prol de um relacionamento estável?
Não, não vale. Cedo ou tarde ele deixará de ser estável para ser penosamente estabilizado (e dará cada vez mais trabalho, feito carro consertado em mecânico ruim). Existem, sim, diversos fatores essenciais numa boa relação: cumplicidade, amor, apoio, carinho, mas isso tudo é insuficiente sem tesão. É como biscoito de polvilho: é até gostosinho, mas não mata a fome. É preciso muito mais sustança.
E, uma noite, adormecemos angustiados ao lado da pessoa que escolhemos para tornar a vida melhor, mais clara. Nos damos conta de que viramos amiguinhos. Somos tomados por uma insatisfação que nada consegue sanar: nos sentimos incompletos por vivermos numa farsa particular. E entristecemos, porque é mesmo doloroso notar que não bastam amigos, filhos, móveis e lembranças para sermos felizes ao lado de alguém: nenhum passado em comum salva um presente inegavelmente divergente. Não basta a vontade de ficar juntinhos no sofá: tem que existir desejo. E, se ele estiver mesmo morto, o melhor a fazer (pelos dois) é aceitar que você a amará por muito tempo - um amor fraternal e cuidadoso -, mas que deve vagar seu lugar na cama.
Se dá pra ser feliz numa relação sem sexo? Claro que dá. Se você for uma orquídea.
AILIN ALEIXO\MULHER HONESTA
12.8.05
Assinar:
Postar comentários (Atom)


0 comentários:
Postar um comentário